Sucesso financeiro vai muito além da rentabilidade dos investimentos.

O volume total de proventos mostra que as incertezas macroeconômicas e geopolíticas, assim como fatores internos, mudaram a filosofia das companhias, que buscaram reter caixa, reduzindo a distribuição

Augusto Gratão

7 de janeiro de 2026

Leitura de 10 min

Avaliar a qualidade de uma orientação financeira apenas pelo desempenho dos investimentos é um erro comum. Não porque rentabilidade não importe, mas porque ela representa apenas uma parte do resultado patrimonial real ao longo do tempo. No Brasil, famílias com boa renda e patrimônio relevante perdem dinheiro de forma recorrente não por investir mal, mas por tomar decisões financeiras importantes de maneira isolada.

Essa perda raramente é visível. Ela não aparece em extratos mensais nem em rankings de performance. Ela se acumula aos poucos, em escolhas aparentemente simples, repetidas por anos, que geram impacto econômico relevante.

Um estudo recente de Shlomo Benartzi, publicado na Financial Planning Review em 2025, ajuda a organizar esse raciocínio. Ao analisar o valor econômico da orientação financeira, Benartzi mostra que o maior impacto não está em tentar extrair retornos adicionais dos mercados, mas em evitar erros sistemáticos em decisões financeiras básicas. São escolhas com ganho econômico mensurável, baixo risco e independentes de cenário macroeconômico. O autor chama esse tipo de decisão de sure wins.

No estudo, sure wins pode ser entendido como ganhos certos. São decisões financeiras que geram benefício econômico previsível e praticamente sem risco, não porque prometem ganhar mais, mas porque evitam perdas que já estão contratadas ou capturam vantagens disponíveis. Diferentemente dos investimentos, o resultado não depende de mercado, cenário ou timing.

Na prática, isso significa que grande parte do sucesso financeiro é decidida fora da carteira de investimentos.

Onde o dinheiro costuma se perder no Brasil

Senior man and woman reading labels on medicine pills boxes, treatment with prescription drugs and vitamins for recovery. Elderly couple inspecting pharmaceutics, home care medication.

Quando olhamos para a realidade brasileira, esses ganhos certos aparecem com frequência em três áreas específicas: previdência, tributação e dívidas.

Começando pela previdência. É comum encontrar famílias que contribuem para planos de previdência privada sem avaliar corretamente os benefícios fiscais disponíveis. O PGBL, por exemplo, permite deduzir até 12% da renda tributável anual.

Quando esse benefício não é utilizado de forma adequada, a perda é imediata, certa e mensurável.

Há ainda um erro mais silencioso. A previdência fechada oferecida por empregadores. Em muitos planos corporativos, o empregador aporta recursos na proporção de um para um em relação ao aporte do funcionário. Na prática, cada real investido é acompanhado por outro real adicional. Ignorar esse tipo de benefício é abrir mão de um retorno instantâneo que nenhum investimento financeiro tradicional consegue oferecer com o mesmo nível de segurança.

Essas decisões funcionam em qualquer cenário econômico. Não dependem de mercado em alta ou juros em queda.

Rentabilidade bruta não constrói patrimônio. Rentabilidade líquida, sim.

Female accountant calculating tax bills while working on finances in the office.

Outro ponto frequentemente negligenciado é a diferença entre rentabilidade bruta e rentabilidade líquida. No Brasil, onde a tributação sobre investimentos varia bastante, o que realmente importa não é quanto um ativo rende antes de impostos, mas quanto sobra depois deles.

É comum ver investimentos com rentabilidade bruta aparentemente superior entregando um resultado líquido inferior a alternativas mais eficientes do ponto de vista tributário. Duas carteiras podem ter desempenhos parecidos no papel e resultados muito diferentes na prática. A que importa é a que gera mais patrimônio líquido ao longo do tempo.

Rentabilidade líquida sustenta objetivos. Rentabilidade bruta, sozinha, não.

Quando a dívida corrói o que o investimento constrói

Talvez o exemplo mais claro de perda silenciosa esteja na convivência entre dívidas caras e investimentos de rentabilidade modesta. Muitas famílias resistem a resgatar um investimento porque ele “está rendendo” ou porque performa ligeiramente acima do mercado. Ao mesmo tempo, mantêm financiamentos, crédito rotativo ou linhas empresariais com juros significativamente mais altos.

Do ponto de vista econômico, isso é uma arbitragem negativa evidente. O patrimônio cresce de um lado e escorre do outro. Ainda assim, o comportamento persiste por apego emocional, aversão a mexer em investimentos ou simples falta de coordenação entre decisões. O custo aparece mês após mês, sem alarde.

O problema não é a rentabilidade. É colocá-la no centro de tudo.

there are two figurines of bulls on a chess board

Nada disso significa que rentabilidade não seja importante. Ela é fundamental e deve ser levada a sério. O erro está em tratá-la como o principal ou único critério de sucesso financeiro.

Existem fatores que, embora menos discutidos, têm impacto econômico muito maior no longo prazo. Eficiência tributária, boa utilização de estruturas previdenciárias, eliminação de dívidas ineficientes e proteção adequada contra riscos geram efeitos cumulativos relevantes. Ainda assim, são frequentemente subestimados porque não aparecem em rankings nem geram conversa.

O estudo de Benartzi mostra que o custo desses erros costuma superar, com folga, qualquer discussão sobre o quanto superamos o benchmark.

Orientação patrimonial como integração de decisões

É aqui que a orientação patrimonial holística ganha sentido. Não como promessa de retorno extraordinário ou foco em produtos específicos, mas como uma infraestrutura de decisão.

Trata-se de integrar orçamento, poupança, previdência, dívidas, investimentos, tributação, seguros e sucessão sob um método coerente. A ideia central não é prever o futuro, mas organizar o patrimônio para funcionar bem mesmo quando o cenário não é ideal.

No Brasil, onde o ambiente tributário é complexo, a volatilidade é recorrente e as decisões tendem a ser fragmentadas, essa integração não é sofisticação. É eficiência e proteção patrimonial.

Uma reflexão final

Talvez a pergunta mais relevante não seja se seus investimentos estão rendendo bem neste ano. A pergunta é quanto patrimônio pode estar sendo perdido em decisões mal coordenadas que parecem pequenas isoladamente, mas que fazem uma diferença material ao longo do tempo.

Orientação patrimonial séria não existe para prometer ganhos extraordinários. Ela existe para capturar ganhos certos, reduzir perdas previsíveis e organizar decisões para que o patrimônio funcione melhor no mundo real.

E, no Brasil, isso costuma valer muito mais do que qualquer tentativa de bater o mercado.

Referência: Benartzi, S. The Value of Holistic Financial Advice. Financial Planning Review, 2025.

Augusto Gratão – Sócio

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